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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Tudo o que não escrevi









Os últimos dois meses de 2010 foram... uma correria insana. Estava soterrado em trabalho, administrando uma reforma e segurando as pontas com as crianças enquanto a mulher encarava uma agenda de várias viagens a trabalho. Tudo isso é, sim, uma desculpa esfarrapada para eu ter sumido completamente das mídias sociais e abandonado o CoffeeBreak. Este é o primeiro post desde 3 de novembro de 2010, vergonha absoluta.

Durante vários momentos pensei em alguns temas para escrever. Mas, no final, sem condições de desenvolver as ideias (que nem são tão boas assim, para começo de conversa), deixei o buraco se alastrar. Ainda sigo sem tempo e sem grandes temas. Assim, decidi juntar num único post de desculpas estes rascunhos. Tudo o que não escrevi deste novembro:

Uma das ideias era retomar o tema carro x pedestre, que CoffeeBreak já abordou aqui, aqui e aqui. No final de semana no litoral norte me impressionou a falta de vergonha na cara que temos todos nós, motoristas. Dane-se quem anda a pé, o importante é conseguir parar o veículo em alguma vaga. Mesmo que seja na calçada. Condomínios de luxo e shoppings sofisticados onde o espaço das vagas de visitante é insuficiente e parte dos carros estaciona em pleno passeio. Isso na praia, onde as pessoas deveriam caminhar mais. Sei. O importante é exibir o carro símbolo de status e poder. Certíssimo.

Falando em carro e status, assustador ler na Folha de S.Paulo que os patrições conseguiram resolver o problema de trânsito para curtirem o feriado de final de ano em Floripa: foram de helicóptero. Ótimo. Mas então eles decidiram se locomover na ilha catarinense usando táxi e transporte público, certo? Alugaram um carro? Não, eles pagaram para transportadores levarem seus carros de luxo para a cidade e poderem se exibir parados no trânsito. Patético.

Outro assunto que pensei em explorar foram notícias que ouvi de casos de maus tratos a crianças registradas por câmeras de celulares. Os aparelhos, segundo o noticiário, teriam sido deixados no local por parentes desconfiados. Ótimo. Mas preparem-se (som de tambores rufando, por favor): a era do final da privacidade já chegou. São milhões, bilhões de câmeras espalhados em qualquer canto do mundo. Tudo o que você fizer poderá e provavelmente será registrado por alguém. Não importa se você está na sua casa ou dirigindo seu carro. Por hora temos exemplos do bônus disto – pequenas vítimas de violência doméstica estão mais seguras agora. Mas, o quanto falta para termos uma imagem fora do contexto incriminando um inocente? Aproveitando o exemplo, imaginem uma babá desesperada tentando salvar uma criança que se engasgou após engolir um objeto? Ela sacode o bebê, vira de ponta a cabeça, dá um tapa em suas costas. Imaginem a cena no noticiário, sem o contexto...

Viram só. Acho que o não escrito era mesmo melhor... que a nova década traga mais e melhor inspiração. Feliz 2011.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Dia Nacional do Trouxa









Inspirado pela temporada de feriados deste final de 2010, CoffeeBreak vem a público propor a criação do Dia Nacional do Trouxa. Afinal, trata-se de uma importante parcela da nossa população, na qual humildemente me incluo, e que merece ser lembrada e homenageada.

Neste nosso Brasil, trouxa é quem para seu carro, mesmo com o sinal aberto, para não fechar o cruzamento. Se bem que trouxa mesmo é quem ainda por cima respeita a faixa de pedestres, enquanto agüenta a buzina enlouquecida dos espertos que não se conformam com seu carro parado.

Trouxa é quem insiste em votar em pleno feriadão, mesmo que seja em branco, enquanto 20% de sábios se abstêm e correm para a praia. Trouxa é quem separa o lixo reciclável que, provavelmente, será misturado de novo com o lixo orgânico no processo da coleta.

Trouxa é quem paga taxas e encara processos burocráticos porque acha que a corrupção começa com o guarda de trânsito e o jeitinho nosso de cada dia. Trouxa é quem acha que mais vale uma estação do metro na porta de casa do que um bairro reservado aos ricos e bem nascidos que não podem se locomover pois não há mais espaço no transito (se bem que há saída para isso: como tem muito carro na rua, vamos aumentar o preço dos veículos e impedir que a gentalha tenha acesso fácil a este diferencial de classes).

Trouxa não compra ingresso de cambista. Não para em fila dupla. Manda os filhos usarem transporte público. Não compra DVD pirata. É usuário de qualquer uma das empresas brasileiras de telefonia celular ou telecomunicações em geral.

Trouxa sou eu, que “invisto” meu tempo escrevendo estas linhas de protesto que não irão mudar a realidade. Trouxa é você que está lendo isto. Um viva a nós, trouxas. Que venha nossa data nacional.

sábado, 25 de setembro de 2010

A nova fronteira do compartilhamento na Internet








Duas grandes tendências parecem hoje apontar o nosso futuro: a massificação do uso da tecnologia digital, em especial a baseada na troca de dados por meio da internet, e uma maior conscientização sobre a importância de se conservar nosso planeta e preservar seus recursos naturais. Tomara.

É interessante notar que as duas podem se unir e gerar uma forte sinergia. As redes sociais tem sido forte fator de divulgação de conceitos inovadores no que se trata de buscar uma relação mais sadia com nosso meio ambiente. A tecnologia tem permitido desenvolver produtos como os leitores digitais que, no médio prazo, podem reduzir drasticamente o corte de árvores para produção de livros e revistas.

Mas talvez uma das possibilidades mais interessantes a ainda menos aproveitadas deste casamento seja o compartilhamento de bens físicos.

Na Wired de Setembro, Clive Thompson (sempre ele) conta o caso do francês Gary Cige que precisavam de uma furadeira para um trabalho rápido. Comprar uma para usar apenas por meia hora parecia desperdício (além do que, era domingo e as lojas estavam fechadas). Então ele percebeu que estava cercado de furadeiras, guardadas nas garagem das casas a seu redor, mas nenhuma delas estava a seu alcance. Nasceu assim o Zilog, serviço que, usando a dinâmica das comunidades digitais permite o aluguel rápido e barato de quinquilharias que compramos para usar de vez em quando – ou mesmo do carro que o vizinho vai deixar na garagem.

Pelos números apresentados por Clive, a ideia pegou. O Zilog tem mais de 150 mil itens disponíveis para aluguel e registra media de seis mil transações por mês. Mais, é o serviço de aluguel de carros de maior crescimento na internet francesa.

Mas o ponto aqui, para mim, não é apenas de empreendedorismo, ou de conseguir alguns trocados a mais alugando as coisas que você tem e não usa todos os dias. A grande questão é que ações como esta permitem um passo à frente no tal consumo consciente. Já parou para pensar no tanto de coisas que você compra e ficam paradas na sua casa? A web é uma ótima maneira de fazer estes objetos circularem e atenderem a necessidade de outras pessoas.

O formato das redes sociais, onde podemos conhecer a reputação de um desconhecido ou mesmo encontrar algum amigo em comum que possa fazer a “ponte” virtual ajuda a quebrar a barreira da desconfiança. Quem já usou o Mercado Livre, por exemplo, percebe o quanto estas ferramentas permitem aproximar e gerar negócios entre estranhos.

Na XPress, onde trabalho, estamos construindo, com base na intranet, um serviço interno que permitirá aos colegas emprestarem DVDs, Livros e Cds. Cada um lista seus itens e quem quiser ver determinado filme simplesmente pede. O sistema vai ajudar o dono a saber com quem está o material e desde quando. A proposta é dividir cultura e conhecimento pela agência, matéria prima básica da criatividade. E colocar para circular o material que fica parado na estante.

Este é apenas um exemplo do muito que pode ser feito para, inovando um pouco, aproveitar as redes digitais e gerar uma nova postura de dividir, não apenas informação, mas o acesso a produtos e serviços. Seu bolso e a natureza agradecem.

domingo, 8 de agosto de 2010

Descobertas CoffeeBreak: pires é o culpado pelo aquecimento global





Tomando café da manhã num hotel, pego uma xícara grande na pilha à minha frente. O objetivo é claro: buscar na cafeína algum alívio ao mau humor por estar trabalhando em pleno domingo. Simpático, o garçom me pergunta se quero um pires. Agradeço e digo não, disfarçando a raiva (absolutamente gratuita e injustificável) por terem me desviado do foco principal de existência naquele preguiçoso momento: litros e litros de café!

Depois, já sentado e saboreando a bebida, acabei me sentindo grato pela pergunta. Gerou a ideia deste post: para que, enfim, serve um pires?

Não, por favor, não pare de ler agora. A questão terá um sentido prático além do fastio matinal deste escriba. No momento em que a Humanidade é chamada a rever seus hábitos de consumo, com o desafio de continuarmos alimentando propriamente os bilhões de habitantes de nosso periclitante planeta azul nas próximas décadas, para que precisamos de um pires?

Não tenho absolutamente nada contra este pequeno e até simpático objeto, que muitos confundem, injustamente, com um prato de reduzidas dimensões. Alguns, fruto do trabalho de ótimos designers, oferecem formatos e cores inovadoras. Mas o ponto aqui é sua função prática. Qual seria? Evitar que gotas de café ou outra bebida menos nobre caiam no chão ou na mesa? (se eu fosse do tipo com humor negro e politicamente incorreto, escreveria agora algo como: por favor! Se você tem mais de cinco anos de idade, a menos que você sofra do Mal de Parkinson, tem a obrigação de conseguir beber seu café sem deixar que caia uma gota).

Nisto preciso render homenagem aos norte-americanos que, com sua praticidade, introduziram a mug, caneca que, além de receber uma quantidade substancial de café, elimina o uso de pires.

Imagine quantos milhões de litros de água seriam economizados em todo o mundo se ninguém mais usasse – e, por conseqüência, lavasse – o pires? E quantos litros a menos de detergente seriam jogados nos rios e lagos?

Apesar do tom jocoso, isto é sério: mudanças aparentemente pequenas em hábitos cotidianos podem ajudar muito a reencontrarmos o equilíbrio do planeta. No restaurante buffet do mesmo hotel onde me ofereceram o pires, passei a usar o mesmo prato quando queria repetir um alimento (a não ser, claro, que houvesse tomado sopa de entrada).

Esta é uma visão que pode (e deve) ser assumida pela indústria também. Que me perdoem os fabricantes de embalagens, mas porque preciso de uma caixa de papelão em volta de minha pasta de dente? Ou qual a função da caixa de cereais se dentro os flocos de milho estão envoltos num saco plástico? Não poderia ser como a granola, que vem direto numa sacola plástica? São apenas alguns exemplos (você leitor seguramente vai lembrar muitos outros).

O problema aqui (como em quase tudo) é que estamos tão acostumados a fazer, comprar e usar as coisas de determinada forma que não percebemos como podemos mudar nossas atitudes para fazer a diferença. E cobrar isto de quem fabrica o que compramos. Menos embalagens, com materiais recicláveis. Uso mais inteligente de objetos cotidianos. Isto é consumo inteligente. E sem pires, por favor.

sábado, 1 de maio de 2010

Ergam as barreiras, o metrô chegou

Não é verdade, comprovadamente. Mas, depois que ouvi mais que uma vez, de fontes diferentes, a mesma afirmação, percebi que, por trás dela existe outro fato que, este sim, parece ser infelizmente verídico.

Pesquisa recente, que refletiu em diversos meios de comunicação, mostrou que a inauguração ou mesmo o anúncio de novas estações de metrô faz a festa do mercado imobiliário. Atraídos pela facilidade, novos moradores se oferecem a pagar valores maiores para habitar estas regiões. O fenômeno, registrado recentemente em São Paulo e Rio de Janeiro, preocupa alguns urbanistas como a Raquel Rolnik, pois estaria afastando de bairros consolidados parte de seus moradores tradicionais, impossibilitados de bancar o aumento do metro quadrado.

Criticas a parte, faz todo o sentido, certo? Em megametrópoles onde ninguém em sã consciência quer conviver com o trânsito caótico, viver perto do metrô é valor agregado. Em minha incansável busca pela liberdade do carro, pesquisei alguns imóveis próximos às estações paulistanas. E foi então que tomei um susto. Mais de uma vez, ao visitar apartamentos mais distantes do que o esperado do metrô, ouvi o argumento: ah, mas imóvel perto da estação desvaloriza.

Contrariado, tentei entender o argumento por trás desta afirmação que, num primeiro momento, me pareceu puro nonsense. Piorou. A desvalorização ocorreria pela aglomeração de “pessoas esquisitas” nas redondezas. Gente simples, menos favorecida, que teria acesso ao local pelo transporte público, além de profissionais liberais que aproveitam o maior transito de pessoas para oferecer seus serviços (taxistas, ambulantes, camelôs, etc.).

Mesmo tendo pesquisas que provam o contrário, o fato desta falácia ser dita abertamente comprova que há muita gente em São Paulo que acredita nisto, ou para quem esta demonstração de discriminação explícita faz sentido. São pessoas para quem o ideal de cidade é pensada a partir de seu próprio umbigo, com espaço apenas para meus iguais, permitindo que eu me sinta membro de um espaço de privilegiados.

Até ai é triste mas cada um que faça sua terapia. O que “pega” mesmo é mais uma mostra de que a posse do carro é, para estes paulistanos, divisão entre quem pode e quem não pode, entre os eleitos para esta cidade perfeita e os invasores, bárbaros que deveriam ficar restritos à periferia. Para estes, o metrô não é uma solução de transporte – até porque não irão jamais se misturar com o populacho no aperto dos trens. Mas sim um portal que transporte para seu bairro uma horda de gente estranha.

Se continuarmos pensando assim, mais do que construirmos prédios sem entradas de pedestres, como denunciado aqui no CoffeeBreak ou termos um trânsito eternamente comprometido, em breve estaremos erguendo muros em torno de nossas ilhas urbanas e assim defendendo nossas mulheres e crianças sadias da barbárie das ruas. Pensando bem, já estamos fazendo isso faz um bom tempo, não é mesmo?

terça-feira, 30 de março de 2010

Tão perto, tão longe

Meu trabalho me permite viajar com certa freqüência. No começo deste ano, por exemplo, tive a grata oportunidade de visitar, com poucas semanas de diferença, Londres e Miami. E fiquei assombrado com a diferença com que ingleses e norte-americanos tratam a questão do respeito ao meio ambiente.

Na capital do Reino Unido me senti um ogro destruidor da natureza. Entre profissionais indo ao trabalho de bicicleta, transporte público funcional e ruas com poucos carros, o destaque, para mim, foi o total desaparecimento das sacolas plásticas.

Como todo bom viajante, comprei alguns badulaques para a família. Um brinquedo aqui, um chá acolá. Mas em momento algum os produtos foram acondicionados em embalagens plásticas. Alguns comerciantes me entregaram os itens em sacos de papel. Outros apenas devolveram a compra da mesma forma que eu a entreguei no caixa, ou seja, sem qualquer embalagem. Nas ruas, chamava a atenção a grande quantidade de pessoas passeando com pequenas sacolas de pano, para acondicionar compras miúdas.

Em Miami, bom, lá eu me senti um eco-chato. Ao contrário de Londres, a cidade norte-americana prioriza o transporte em veículos motorizados individuais. Com gasolina (ainda) barata e carros idem, o transporte público fica resumido a turistas teimosos que não alugaram um automóvel, pré-adolescentes (até os 16), imigrantes ilegais e trabalhadores mais humildes. Bicicletas? Só em regiões restritas como Miami Beach – apesar de plana, Miami e região se ‘espalha’ na horizontal por quilômetros e quilômetros (ou seriam milhas e milhas?), tornando difícil o deslocamento sem um meio motorizado.

Um grande centro de consumo, com seus shoppings e mega outlets de preços tentadores, a capital da Flórida parece bem distante de qualquer preocupação com o meio ambiente também no que se trata do destino do lixo. Praticamente impossível sair das milhares de lojas sem sacolas e mais sacolas plásticas. E, em quatro dias circulando pela cidade, não vi um único recipiente para separação de detritos recicláveis.

O mais assustador, porém, foi o passeio no final da tarde de uma terça-feira em Miami Beach. Não entendi nada. O belo mar com tons de azul claro estava lá, assim como as coloridas tendas de madeira dos salva-vidas. Mas aquele festival de lixo na faixa de areia não fazia o menor sentido. Por algum motivo bizarro, os banhistas norte-americanos simplesmente não recolhem seu lixo na praia. Latas de cerveja e refrigerante, copos de papelão, embalagens de lanches e salgadinhos se espalham pela praia, num deprimente espetáculo de falta de pudor e educação.

Claro que, em algum momento, alguém aparece e limpa tudo, pois de manhã cedo a paia esta limpinha, linda, reluzente. Mas será que eles nunca vão passear na praia no final da tarde? Curtir o por do sol então, nem pensar. Talvez haja um motivo, uma razão qualquer. Mas não parece nada coerente. Um gasto de dinheiro púbico (ainda bem que não é o meu) e um desrespeito com o ambiente, que merece um tratamento mais adequado.

Dois paises que dividem não apenas o mesmo idioma, mas a mesma base de pensamento anglo-saxão. De onde se origina tamanha diferença? Não tenho a menor ideia e nem mesmo a pretensão de, com a visão simplista de um viajante, responder a esta pergunta. A única pista que tenho é a cena que registrei em Londres, a beira do Tâmisa, bem em frente ao Tate Modern, onde um grupo decidiu enforcar pingüins e ursos polares (de plástico, ufa!) como alerta ao aquecimento global, dando uma mostra da distancia do engajamento popular das duas cidades. Enquanto isto, num final de tarde em Miami Beach...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Trabalho em casa: uma proposta para os governantes






Volto ao tema porque ele repercutiu e acho que vale fomentar o debate. Começo a manhã lendo no Twitter post da @veja sobre o primeiro dia de trégua depois de 47 dias seguidos de chuva. Tema de capas de revista e especiais na TV, o fenômeno meteorológico é o assunto deste pré-Carnaval.

Só que, mais do que munição para os profetas do eco-apocalipse afirmarem que o aquecimento global etc etc etc, as constantes tormentas mudaram a vida de quem mora em São Paulo. E para muito pior. Além do óbvio sofrimento com enchentes, perda de dezenas de vidas e milhares de veículos, temos o impacto no trânsito, que afeta todos os paulistanos, independente de idade ou classe social.

E este impacto, antes concentrado no período da chuva em si – que na maior parte das vezes ocorreu no final da tarde, pleno rush do retorno às residências, agora se ampliou para o dia inteiro. Explico: como eu, acredito que a maioria de vocês leitores já recebeu pelo menos um convite para reuniões ou encontros de manhã ou, no máximo, no início da tarde, acompanhado do comentário “antes que comece a chover”.

Isto mesmo. As chuvas criaram uma nova regra e agora todos querem resolver seus problemas que envolvem locomoção, seja ir ao banco ou ao médico, seja um encontro de trabalho, antes do meio da tarde. Óbvio que os reflexos no trânsito foram imediatos. Agora estamos assim: congestionamento de tarde por conta da chuva e também de manhã por conta de todos os que querem fugir das precipitações.

Sem medo de ser repetitivo – ou melhor, assumindo mesmo a repetição – volto a bater na tecla do trabalho à distância, em casa, como um bom remédio para esta situação (e mesmo para o caos no trânsito em geral, independente das chuvas). Semana passada, em reunião com um cliente da XPress, discutimos novas tecnologias que permitem empresas integrarem seus funcionários via internet de maneira simples e rápida, com softwares disponíveis on-line (não é preciso nem mesmo instalar na máquina do profissional).

Hoje temos no Brasil uma banda larga de internet ainda cara e restrita a poucos. Giovana Battiferro (@giovanab) propõe que o governo conceda desconto para usuários pessoais que comprovem o uso da rede para trabalho em casa. Seria mais barato do que continuar ampliando eternamente as congestionadas vias de acesso a qualquer ponto da cidade e geraria um impacto positivo em diversos aspectos, da produtividade e capacidade de inovação das empresas ao impulso da educação e cultura. Simplesmente genial, não é Serra? Dilma?

Acredito que as empresas que começarem a se preparar hoje para ter uma rede de profissionais flexível, com dias de trabalho em casa e outros no escritório, podem ter uma grande vantagem competitiva no futuro. E os líderes políticos que incentivarem esta prática mostram a capacidade de buscar um país mais moderno. Ou será que vamos deixar nosso preconceito e a eterna desconfiança no outro nos escravizar a um padrão do século XX?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A inovação que veio com a chuva

Não preciso relatar, relembrar. Está presente na mente de todos o caos que São Paulo está vivendo desde o início do ano. Neste Janeiro mais chuvoso de todos os tempos, mais de 50 pessoas já morreram por conta de enchentes, inundações e desabamentos. Não estamos considerando aqui possíveis vítimas de doenças geradas pelo contato com esgoto e outros dejetos.

Mesmo quem mora em bairros mais elevados ou sem histórico de enchentes já está no limite pelo impacto no transito. Numa Manaus de concreto, temos agora nossa chuva da tarde. Todas as tardes. Com o triste detalhe de que não se trata de uma chuva qualquer, mas de tempestades que trazem ao nosso asfalto molhado ainda mais água, que não tem como escorrer para rios cheios. Vias tomadas pelas enxurradas, túneis inundados. Numa megalópole com circulação limitada pela quantidade de pessoas e falta de transporte público, este cenário gera o caos.

Profissionais que chegam atrasados ao emprego ou a reuniões. Estressados de depois de uma, duas, três horas de trânsito. Pessoas que simplesmente não chegam ao trabalho. E outros que chegam, trabalham, mas não tem a mínima ideia de como e que horas voltarão para suas residências.

Bom, muitas das grandes inovações surgiram da necessidade de resolver questões práticas. Talvez este período de chuvas possa ter a utilidade de levar nossa comunidade corporativa a repensar a questão do trabalho em casa. O avanço da tecnologia e das redes de internet em banda larga derrubaram várias das barreiras que antes haviam para o trabalho remoto. Hoje é possível acessar arquivos, mensagens ou mesmo entrar na rede de uma empresa com segurança fora do escritório.

Serviços privados ou públicos, como o Skype, de comunicação usando a internet também garantem o acesso de voz e imagem de quem está distante. Eu mesmo, na XPress, já contratei profissionais que entrevistei usando videoconferência.

Mesmo as chefias mais, digamos, desconfiadas, podem monitorar o trabalho de seus subordinados que estão fora do alcance de seus olhos por meio de indicadores digitais de suas ações.

Ou seja, aparentemente o que falta é a mudança de uma chave qualquer na visão de organização do trabalho dos gestores. Algo que envolve todos (na prestação de serviços, meu ramo, por exemplo, não basta a anuência apenas das lideranças, mas também a cumplicidade dos clientes).

Economia para empresas com a redução nos atrasos e acidentes. Ganhos para os profissionais em qualidade de vida, tempo (cada vez mais escasso) e motivação. Benefícios para o negócio com equipes mais engajadas e, muito provavelmente, mais produtivas e criativas.

Temos o outro lado também. Alguns profissionais se ressentem da troca de ideias com seus pares – nada substitui o olho no olho. Outros tem dificuldade em separar vida pessoal e profissional se não houver uma alteração do espaço físico entre um e outro. Há ainda os que gerenciam mal seu tempo e correm o risco de se perder sem chefes próximos e cobranças.

Talvez, como sugeriu Fabio Chiorino, a mudança deva ser gradual. Alguns dias no escritório, outros em casa, numa flexibilidade pautada pela agenda e a característica dos projetos daquele momento. Pessoalmente, acho que está mais do que na hora de começarmos a nos organizarmos para uma nova realidade. Ou paramos com a cidade.

PS – Enquanto acabo este texto, 14h25 da quinta, dia 28, começa a chover, de novo, em São Paulo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Experiências CoffeeBreak: vivendo o lado selvagem do transporte púbico em SP




Aquele dia deu tudo errado. Eram 18h15 quanto tomei a decisão. Diante de mais uma tempestade que se armava no céu de São Paulo e do temerário trânsito de dezembro, decidi voltar para casa utilizando o transporte público. Estava sem carro e até tinha pensado em usar um táxi para o retorno da Vila Olímpia à Mooca no fim do expediente, mas a idéia de ficar preso no trânsito me fez mudar os planos.

Me animei ao falar com o amigo Rodrigo Dionísio que confirmou gastar apenas 45 minutos entre a estação Vila Olímpia e sua casa em Santa Cecília. Mais ainda: ele também ia para o trem e assim eu teria companhia ao menos até Pinheiros, onde o Rodrigo desceria aquela tarde. Fui.

Tudo começou bem e assim foi até a mudança de trens, em Presidente Autino. Quando as portas do meu vagão se abriram, muitos saíram correndo. Decidi manter a fleuma e fui no meu ritmo. Ledo engano: perdi o transporte sentido Lapa que estava dando sopa e fiquei longos 10 minutos esperando a próxima composição. Pressenti que levaria mais tempo do que gostaria para chegar em casa.

Quando finalmente o segundo trem me deixou na estação Palmeiras-Barra Funda do metro, já tinha gasto 50 minutos. Pensei “ok, agora são apenas nove estações e chego na Bresser-Mooca, não vou perder muito tempo em relação a uma hora que gasto de carro”. Realmente, depois de 25 minutos eu estava desembarcando na Mooca. E foi então que um percurso largo virou um pesadelo.

Afinal, eu contava com o velho e bom táxi para terminar o trajeto e me deixar em casa. Mas aquela noite, talvez reflexo do trânsito, da chuva, das compras de Natal, não havia táxi no ponto. Pior: três pessoas sentadas esperavam por um carro. Com pressa, decidi seguir a pé, mesmo com o pouco recomendável trecho da rua Bresser entre o metro e a Radial. Foram 45 longos minutos de caminhada noturna, com roupa pouco adequada. Resultado final: duas horas para chegar ao destino. Nada bom.

Pensei: “então é por isto que tantos são contra o transporte público”. Realmente, caminhando com o incomodo sapato social pelas calçadas escuras e, digamos, underground, da rua Bresser, senti saudade do conforto e segurança do meu Palio Weekend. Será então que minha pregação pelo uso mais equilibrado de automóveis particulares, revezando com caronas, caminhadas, bicicleta e transporte público é uma bobagem? Inocência? Romantismo?

O primeiro impulso foi esquecer a desventura. O segundo de pontuar todas as falhas do sistema público (demora nos trens, distância entre as estações do metro, falta de área adequada para bicicletas em todas as estações etc.). Mas foi então que me toquei que foi só um dia em que deu tudo errado. O que é muito mais fácil acontecer num final de tarde de dezembro com tempestade de quase verão (ainda era primavera). E que isso já aconteceu comigo de carro, me custando mais de duas horas para chegar. E que se trens podem quebrar, carros idem.

Em resumo, continuo o mesmo chato de antes, acreditando que a opção menos-carro-e-mais-bicicleta-caminhada-carona-transporte público pode tornar nossos deslocamentos mais inteligentes. E, contra um dia ruim, o melhor mesmo é uma noite de sono.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tudo o que não sei sobre 2010

Eu estava escrevendo um texto super complexo, que poderá se desdobrar em pelo menos dois posts, quando me dei conta de que o ano está realmente acabando. É só olhar a redução na quantidade de tweets. Ou o trânsito finalmente um pouco melhor de São Paulo. Alguns sortudos já pararam, muitos estão com a cabeça nos preparativos para as festas e outros, como este escriba, alucinados de tanto trabalho para compensar a breve pausa de Natal e Ano Novo.

Então deixei o material sério para 2010, quando espero que haja leitores com paciência, e arriscarei um breve texto de final de ano – faltam menos de 10 dias e me pergunto se vou conseguir escrever de novo antes da virada.

Sou fã de listas e, por conta disto, sempre me pego lendo todo tipo de material sobre os melhores, os piores, os mais vistos, etc. etc. etc. E é isso mesmo que meus colegas das redações (e, acredito, dos blogs também) vão usar para ocupar o espaço normalmente dedicado às notícias que não acontecerão e aos artigos que ninguém quer ler (ou escrever).

Não sei quais as melhores, mais vistas, mais importantes etc. e tal de 2009. Também não me arrisco a afirmar o que vai acontecer no ano que chegará em breve (mesmo sabendo que nós, brasileiros, provavelmente iremos esquecer e ninguém me cobrará depois pelas bobagens ditas como sérias). Só tenho perguntas. E são elas que deixo para quem ainda estiver lendo este texto.

Será que o ego é mesmo o grande motor do mundo corporativo (para o bem e para o mal)?

O que queremos, no fundo, é ter razão ou saber a verdade?

O peso que o medo tem nas decisões, em especial as empresariais, estaria superestimado?

A cultura (no sentido antropológico) é a próxima fronteira da comunicação?

É possível o equilíbrio entre nosso impulso por conteúdo gratuito e a necessidade de remunerar quem gera material de qualidade?

As empresas perceberão que já estão nas novas mídias (e que agora é uma questão de lidar com esta realidade)?

A repulsa ao transporte público, à carona e às caminhadas é necessidade de auto(móvel)-afirmação? Ou é mesmo preguiça pura e simples?

O consumo consciente vai passar de tendência à atitude?

A tecnologia irá nos libertar ou finalmente nos libertaremos dela?

Todos seremos veículos de comunicação de massa?

Seguimos fazendo tudo igual, mas por caminhos diferentes?

Estamos questionando (ou preferimos a ilusão de nossas certezas pétreas enquanto o mundo continua a se mover)?

Estamos fazendo as perguntas certas? Ou apenas aquelas que justificam nossas respostas?

Na desesperada busca por certezas que talvez simplesmente não existam, continuaremos nos deixando levar por modas, profetas e gurus ou vamos aprender a pensar por nos mesmos?

O Santos será campeão brasileiro?

Que 2010 nos traga novas perguntas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

"Você é escravo do trânsito"*



*frase grafitada na avenida Faria Lima, quase esquina com a JK, sentido Vl Olímpia






Juro que foi sem querer, mas pareceu aposta, competição. Ontem combinei de me encontrar, no final da tarde, com minha esposa num supermercado próximo a nossos escritórios, na rua Clodomiro Amazonas, Itaim. Como era rodízio de nosso carro, que estava com ela, acertamos que eu iria a pé até o local.

Minha mulher saiu de seu escritório, na Juscelino Kubitschek sentido Marginal, quase na esquina com a Henrique Chamma, às 19h45. Foi de carro, pela rua Leopoldo Couto de Magalhães Junior, para fugir da fiscalização do rodízio (!!!!). Dei 15 minutos de vantagem (rs) e sai do meu escritório na rua Gomes de Carvalho, quase esquina com a Lourenço Marques, às 20h02. Fui andando. Exatamente 20h17 cheguei ao destino e liguei para Adriana. Tinha certeza de que ela já estava com o carrinho cheio de guloseimas natalinas. Ela não atendeu. Tentei de novo. Nada. Comecei a procurar o carro no estacionamento (queria guardar minha bolsa) e não achei. Sim. Ela ainda não estava lá. Dois minutos depois nosso carro (por uma questão de ecologia e economia fazemos questão de ter um só) apontou na entrada do Pão de Açúcar. Levei 15 minutos e ela mais de meia hora.

Na saída do meu escritório, desci no elevador com um colega de trabalho. Contei para onde ia e como. A reação do moço foi uma síntese de como pensamos: mas vais a pé? (ele é gaúcho). Bah! Espera alguém sair de carro e pegas uma carona. Ainda bem que optei por seguir caminhando.

A infeliz realidade de nossa cidade é que, em muitas situações, caminhar é mais rápido (e econômico, e saudável etc etc etc) que ir de carro. E enquanto todos ainda tivermos nossa mentalidade voltada ao automóvel como primeira (e única) opção para nos locomovermos, isto tende a piorar. E muito.

Minha opinião (e como não sou pesquisador ou antropólogo é apenas isto, uma opinião) é de que o pano de fundo deste fenômeno é cultural. O brasileiro super valoriza a hierarquia. Cargos, status, condição social importam sim. E muito. Desde a cadeia, onde quem tem diploma de ensino superior tem direito a tratamento diferenciado, até a mais simples de nossas relações, nossa posição determina o quanto de cidadania temos acesso. E o carro é mais um indicador claro de quem é quem. “Dotor” anda de carro, “mane”, a pé. Simples assim.

Só isso explica porque uma cidade onde, como levantou a Raquel Rolnik, 40% dos deslocamentos acontecem à pé (dados oficiais), os semáforos para pedestres de grandes avenidas são regulados para liberar o fluxo de veículos por diversos minutos e depois concede 20 segundos (sim, você leu certo, 20 segundos) para os transeuntes.

Acho que precisamos sair da nossa zona de conforto (falsa, pois ficar preso no trânsito esta cada vez menos confortável) e pensar em outras saídas. Uma grande amiga postou outro dia no Twitter que está impossível chamar um rádio táxi em São Paulo. Você fica 20 minutos esperando para a atendente falar com você e avisar que a unidade mais próxima levará meia hora para chegar. Preciso de um carro, disse ela. Você tem que levantar da cadeira e pegar um táxi na rua, disse eu. Numa época onde os confortos estão cada vez mais desconfortáveis, é hora de se mexer e pensar diferente.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Experiências CoffeeBreak: andando por São Paulo


Experimente andar pelas ruas de uma grande cidade como São Paulo. Deixe o carro na garagem, se despeça do trânsito e caminhe. Ê uma experiência singular. Mas cheia de percalços. E o desrespeito de motoristas é apenas um deles.

Não, São Paulo não é Londres. Ninguém vai parar o carro quando você colocar o pé na faixa de pedestres. Ok. Mas o detalhe é que você não vai conseguir atravessar na faixa em momento algum (exceto se houver um semáforo). Carros saindo das garagens também são um risco – como ousa um simples pedestre na calçada atrasar a passagem de um veículo motorizado?

Mas o pior susto que levei em minhas andanças foi com um motociclista que decidiu subir na calçada para chegar mais rápido a uma loja e passou a alguns centímetros deste escriba.

E os veículos não são as únicas barreiras a quem quer se locomover com as próprias pernas na capital paulista. As calçadas, em geral, são pensadas para quase tudo, menos para ser o espaço de pedestres. Buracos, postes, bancas de jornais (que eu adoro), lixeiras e agora, com a ótima lei anti-tabaco, enormes cinzeiros de concreto disputam espaço com o transeunte.

E as obras? Durante meses a construção de um novo prédio de escritórios na avenida Juscelino Kubistchek próximo à esquina com a Faria Lima, no sentido marginal – centro, praticamente obrigava pedestres a dividirem espaço com os carros e ônibus da via. Poucos metros à frente, outro obstáculo: a estrutura de metal e vidro de um ponto de ônibus ocupa todo o pouco espaço da estreita calçada.

Adoro bares, restaurantes. Melhor ainda se tiverem mesas na calçada. Um charme. Mas quando eles ocupam toda a calçada, algo está errado. Lembro que, até algum tempo, um ambulante, vendedor de sanduíches, montou uma verdadeira lanchonete na Vila Olímpia. Um toldo protegia da chuva os consumidores sentados em bancos e com seus refrigerantes apoiados em mesas metálicas. O detalhe é que toda esta estrutura estava na calçada. O toldo saia de uma van, estacionada, e era preso por ganchos numa parede, onde se apoiavam também as mesinhas. Lembro de me sentir incomodando os consumidores ao tentar passar pelo meio da “lanchonete”.

Em resumo: nossa cidade precisa aprender a respeitar seus pedestres. E isso só vai acontecer quando os tais “formadores de opinião” ocuparem suas ruas, quando andar estiver na moda, quando o carro for só um carro, e não uma prova ambulante de status social.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Desafio CoffeeBreak: um dia sem carro por semana e sua criatividade de volta 2

Num post há duas semanas soltei a proposta (afinal, algum maluco tem que começar a propor algo). Como sonhar é de graça, se todos aceitassem deixar o carro em casa uma vez por semana teríamos 20% a menos de veículos nas ruas. E não apenas no horário do rodízio, mas o dia inteiro. Quanto tempo nós ganharíamos para coisas muito mais divertidas do que ficar parado num engarrafamento?

Diminuindo não apenas a quantidade de automóveis circulando, mas o tempo que eles ficam ligados, teríamos uma redução ainda maior na poluição. Isto sim é atitude.

Mas estes argumentos meio hippies não comovem mais ninguém, não é verdade? Afinal, ficamos todos esperando que o outro comece a fazer o que não fazemos. Afinal, eu e meus amigos não representamos nada numa cidade com mais de seis milhões de carros, não é mesmo?

Como de hippie não tenho nada, meus argumentos são mais egoístas (apesar de achar que a melhora no trânsito já seja boa o bastante e que minha rinite alérgica agradeceria menos CO2 no ar).

Todos falam em inovação.Todos querem criatividade. Mas ela não vem do nada. É gerada com muito suor e uma bagagem cultural em constante ampliação, na qual uma abertura para diversas mensagens, imagens e pontos de vista tem papel fundamental. Experiências distintas, sair do seu ambiente e conhecer outros sabores, outros odores, outros referenciais é uma estratégia reconhecidamente poderosa para “turbinar” a criatividade.

Para quem, como eu, está viciado no (aparente) conforto do carro na porta, ficar sem ele periodicamente pode ser uma ótima ferramenta para aumentar a criatividade.

Um dos grandes argumentos dos defensores do transporte individual é a liberdade. Você pode sair de onde quiser e ir para onde desejar a qualquer hora. Claro, contanto que não seja seu rodízio ou que não esteja chovendo ou que não seja sexta-feira no final da tarde ou que, como minha mulher, você não leve 30 minutos apenas para sair do estacionamento de seu escritório (sim, é verdade).

Já ficar sem carro proporciona outra liberdade: a de escolher a melhor maneira de se locomover (mesmo que seja um carro, com um táxi ou uma carona). Quando você está de carro, nem pensa: vai e vem com seu possante. No máximo muda o caminho e tem a oportunidade de fica engarrafado num cenário novo. Sem ele, cada viagem abre um leque de possibilidades. Você tem que pensar qual a melhor opção, mesmo que seja não ir a lugar algum. Posso parecer inocente, e talvez esteja sendo, mas acho que estas experiências agregam, alargam os horizontes.

Estou longe de ser radical. Venho de uma família de classe média baixa que faliu nos 80. Na época de faculdade tinha três empregos e meu primeiro filho. Sem carro e economizando cada centavo, após o almoço andava meia hora até a rádio onde trabalhava de tarde. Meu sonho era o carro que só comprei anos depois. Pior, adoro dirigir, melhor ainda na estrada. Hoje, se optar pelo transporte público, levaria cerca de duas horas para chegar ao escritório toda manhã. Sem chance. Mas acho que podemos aprender a dependermos menos deste expediente, a buscar o equilíbrio e utilizar outras formas de locomoção só para variar. Segue o desafio. Que tal um dia sem carro por semana? Eu estou me reeducando.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Desafio CoffeeBreak: um dia sem carro por semana e sua criatividade de volta

Tudo começou por necessidade. Ou quase. Para economizar nossas finanças, o transito de SP e o planeta, minha mulher e eu decidimos ter apenas um carro. Afinal, trabalhamos muito próximos e temos o mesmo horário. Claro que há dias e dias – já tive que esperar em dias que ela teve que ficar até mais tarde e vice-versa. Mas em geral a experiência tem sido positiva e ainda ganhamos mais tempo juntos – afinal levamos cerca de duas horas por dia entre ir e vir do escritório.

Mas o post não é sobre isto, e sim sobre ficar sem o carro. Meus gêmeos nasceram, minha mulher ainda está de licença e, pelo menos uma vez por semana, precisa de nosso carro para resolver uma série de questões. E foi assim que comecei a me organizar para tirar meu dia da semana sem carro – e não apenas sobrevivi a isto, mas acabei gostando.

É incrível como nos acostumamos com saídas que parecem simples e não vemos quantas possibilidades existem. A principal delas é a velha e boa carona. É com ela que consigo chegar ir da Mooca ao escritório na Vila (argh) Olímpia. Afinal, pelo menos três colegas moram próximo de mim e nos revezamos dando carona uns aos outros.

Mas a vida é mais complexa do que chegar ao escritório. Academia, reuniões, almoço com amigos... uma atitude ainda mais antiga que a carona é caminhar. Já que temos que, como uma manada, trabalharmos todos na mesma região, afinal alguém disse que é mais chique (mesmo sendo uma região sem metro, com ruas estreitas e sem estacionamento) alguma vantagem temos que ter com isto. Hoje fui da academia, andando, a uma reunião, da qual voltei da mesma forma. Outros clientes da agencia, localizados na região da Berrini, já visitei usando o trem. Quando tudo falha, há o táxi – cujo preço é mais do que compensado pelo carro a menos que temos em casa (segundo os cálculos de um especialista em finanças, o custo para manter um carro popular, entre combustível, seguro, manutenção, impostos e depreciação do veículo é de mais de R$ 1.200 ao mês).

O que esta experiência me ensinou, porém, é que, mais do que possível, ficar sem carro de vez em quando é uma delícia. Andar permite ver uma cidade diferente. Inúmeros detalhes, invisíveis ao volante, aparecem, sejam pequenas praças, uma casa com um pórtico digno de nota, um pequeno e aparentemente delicioso restaurante, um bar que parou nos anos 50. E as pessoas. Olhar as pessoas, interagir, rir com o rapaz que, sem perceber, desfila pela Vila Olímpia com um colante escrito “este é grátis” preso às costas. Chego ao escritório mais leve, relaxado e com meu estoque de referências, tão importantes para ser criativo, renovado. Porquê não, toda semana, tirar pelo menos um dia para deixar o carro em casa?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um post de amor a São Paulo


Foto de Rodrigo Dionísio, outro amante da São Paulo real

Fiquei impressionado. Hoje de manhã tive uma reunião profissional num moderno edifício comercial na Leopoldo Couto de Magalhães Junior, rua tão pomposa quanto o nome, em pleno Itaim Bibi. A edificação ainda cheira a nova. Mas o que realmente me chamou a atenção foi que o prédio simplesmente não possui nenhum acesso para pedestres. Isso mesmo.

Construído num nível cerca de um metro mais alto do que a rua, o edifício conta com três rampas de acesso para veículos. E só. Qualquer incauto passante que esteja na calçada e tenha a vontade ou, como no meu caso, a necessidade de entrar se vê obrigado a dividir espaço com os carros que sobem e descem. Senti-me um extraterrestre. Será que sou o único que ainda caminha pela cidade?

O mais triste é que o tal prédio é emblemático de como esta cidade está se estruturando. Cada vez mais os locais elegantes, refinados, destinados às pessoas de fino trato, passam a segregar os pedestres. Ou você chega de carro ou não chega. Um analista mal humorado afirmaria que se trata de algo pensado. Em sua necessidade de preservar a segurança dos bem nascidos e deixar os menos favorecidos longe de sua visão – afinal, é tão deprimente lembrar que ainda existem pobres – ampliam-se as barreiras físicas e a posse de um veículo passa a ser mais um diferencial entre quem pode e quem não pode entrar no clube (era melhor quando esta seleção era feita por uma calça de marca, uma conversa sobre esqui ou uma sacola da mega-loja chique entre a Marginal Pinheiros e a favela da Vila Olímpia).

Mas eu não acredito nisto. Acho que é burrice mesmo. Por qualquer ângulo que se veja, seja o da preservação do meio ambiente, seja do trânsito, seja da alegria de ver as ruas cheias de gente interessante e se alegrar ao desejar a alguém bom dia (lembra disso??), uma cidade construída para ocupantes solitários de carros blindados é uma deprimente estupidez. O crítico mal humorado do parágrafo de cima diria que nossa elite é imbecil (sem lembrar que todo pseudo-intelectual, neste país, também é parte desta mesma elite). Prefiro achar que está perdida, aprisionada em seu medo.

Porque não mudamos de atitude? Quando vamos começar a dar carona? A ir a pé se o endereço é próximo? A pegar o metro, o trem, o ônibus? Quando vamos andar de bicicleta pelas ruas da cidade – não só como lazer, mas como meio de transporte? Quando vamos perder o receio de olhar o outro por receio de ver refletido nele nossa falta de atitude?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Luxo para salvar o planeta?



Não tenho certeza de onde li isso, há pouco mais de uma ano, se foi na Wired ou na GQ. A ideia era, no mínimo, interessante, mas não reverberou. Provocando, o texto dizia que uma cadeira de plástico, com design assinado, iria salvar o meio ambiente. Esquentando ainda mais a polêmica, dizia que o luxo poderia contribuir muito. Insanidade? Não. O interessante conceito por trás disto é de que uma das grandes ameaças ao equilíbrio ambiental é exatamente o consumo desenfreado de quinquilharias baratas e descartáveis. Voltando ao exemplo da cadeira de design: quem gasta uma boa quantia num móvel caro vai cuidar melhor dele, preserva-lo e esperar muito mais para trocar por outro (até por conta do investimento necessário). E mesmo quando o faça, é muito mais fácil que encontre um comprador, interessado na peça de design de segunda mão, que também deverá manter o ciclo de conservação. Em comparação com uma cadeira qualquer, sem valor de revenda e mal conservada, o móvel de luxo geraria muito menos dejeto e, por durar mais, consumiria menos energia, matérias-primas etc. O mesmo raciocínio pode ser replicado para relógios, canetas, carros e até roupas, por exemplo. A base é que qualidade e custo podem refrear o consumo desnecessário.

Papo de marketeiro para vender grife? Proposta inconsistente pois bastaria uma postura de consumo consciente – independente do custo/marca – para resolver isto? Limpa consciência para snobes? Pode ser tudo isto, mas como se trata de uma ideia que vem contra o politicamente correto e o senso comum estabelecido (e talvez por isto mesmo não tenha “pegado”), eu adoro! No mínimo, faz pensar – o que hoje não é pouco.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Natureza: seguir ou recriar?

A Época Negócios deste mês destaca a uma interessante tendência dos pesquisadores: buscar na natureza a solução ou inspiração para inovar. E os resultados são surpreendentes. Famoso e polêmico, o maiô que a Speedo desenvolveu para nadadores profissionais é considerado um dos principais coadjuvantes para o as oito medalhas de ouro de Michael Phelps nas Olimpíadas de Pequim. O que poucos sabem, porém, é que sua tecnologia simplesmente imita os micro dentes presentes na pele dos tubarões que os ajudam a ser um dos animais mais rápidos do planeta, atingindo a incrível marca de 75 km/h dentro da água. Este ramo de estudo da ciência, chamado de biomimetismo (http://www.asknature.org/), ganha cada vez mais relevância no mundo empresarial. Tintas que sintetizam o poder de auto-limpeza das flores ou o brilho das borboletas, ventiladores que se inspiram nas espirais geradas pela fumaça das fogueiras ou da água ao ser confrontada com um obstáculo para economizar 30% de energia, sistemas de aquecimento e refrigeração de edifícios inspirados nas casas de cupins e usam apenas 35% da eletricidade. Os exemplos citados na reportagem são muitos e apontam um caminho muito bem sucedido. A mesma edição da Época Negócios apresenta outro caminho, aparentemente inverso. Nele, a proposta é utilizar as modernas técnicas arquitetônicas e de engenharia (exatamente as que contribuem para obras que destroem a natureza) para recuperar o verde e alimentar as pessoas sem devastar o que resta de matas nativas. Como? Criando edifícios-fazenda. Em plena área urbana, estas edificações verticais teriam vários andares de plantações hidropônicas (onde a vegetação cresce sobre a água) de frutas, legumes e verduras, utilizando líquido reaproveitado e com energia solar, eólica ou gerada pela queima dos vegetais não aproveitados. Qual o caminho? Seguir a natureza ou utilizar nosso conhecimento para salva-la? Tornar a tecnologia mais natural ou a natureza mais tecnológica? Na minha humilde opinião, os dois. Como no yin e yang, os dois lados se complementam na busca do equilíbrio perdido

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sabedoria japonesa

Pode ser pura coincidência mas, ao menos, faz pensar (e é isto que nos importa neste espaço). E logo no Japão, país marcado pelas fortes tradições e onde cada gesto tem um forte significado. Assisti ontem à noite, no JN, http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL1191809-10406,00-JAPAO+LANCA+MEDIDAS+CONTRA+A+EMISSAO+DE+GASES.html que o governo japonês, entre outras medidas, decidiu dispensar gravata e paletó em reuniões oficiais do governo para reduzir o aquescimento global.
A lógica é quase simplista de tão simples: com um vestuário mais arejado se utiliza menos ar condicionado nos escritórios.
Não tenha nada contra o terno e gravata, estéticamente falando. Mas não é incrível que a quebra do protocolo e da formalidade pode ajudar a preservar nosso planeta?